Thursday, April 06, 2006

Egoísta

O dia nasceu bonito e quiseste que nos levantássemos. Sempre gostei de te apreciar às escondidas, e aproveitei para ficar na cama a escutar os sons longínquos do chuveiro - o primeiro impacto na superfície da banheira; instantes depois, a diminuição da pressão. Posso imaginar o vapor a subir pelas paredes, e o regresso da pressão indica-me que abriste a água fria. O som começa a ser entrecortado pela tua mão esquerda a experimentar a temperatura. Abro um olho para confirmar que deixaste as calças do pijama pelo chão. A seguir, quase imperceptível para o ouvido desprevenido, o barulho que fazes com a boca quando te arrepias ao entrar no jacto do chuveiro. A água cai agora em gotas grossas e de vez em quando silencia para logo voltar. Quando esfregas as mãos com sabonete é altura de me espreguiçar e ir juntar-me a ti. Ainda te ouço soltar um gritinho de satisfação significando que estalaram as últimas camadas do teu sono. Sorrio, avanço já despido para a retrete. Entro no duche e abraço-te com preguiça. É a fita que eu faço para tu me ensaboares.

João Barreto

1 comment:

Anonymous said...

Lindo!